11 maio 2006

11 de Maio... O meu pai faz anos

O mê pai faz anos hoje. Eu gosto muito do mê pai. E ele gosta muito de mim. Eu não lhe digo isto muitas vezes mas ele sabe que sim.
Dizem que as meninas são mais agarradas ao pai que à mãe. Por força de circunstâncias várias tal não veio a acontecer connosco, a cumplicidade foi toda para a mãe, que era quem estava presente.
O pai não. Quando eu tinha 4 ou 5 anos emigrou para o Canadá. Dos anos que lá passou guardo cartas e, principalmente, postais. Não destes agora, mas postais pequeninos. Não os vejo há muito tempo mas, a menos que a memória me atraiçoe, acho que são dezenas deles. São monumentos, paisagens, igrejas, gentes. Também mandava uns postais de aniversário na altura espantosos: consoante se viravam, assim se mexiam os patinhos ou gatinhos neles impressos, pareciam vivos e chegavam a ser assustadores.
Tinha uma brochura da embaixada canadiana que falava sobre o país das mil oportunidades e que lia e relia até quase a saber de cor. O Canadá passou a ser para mim o Paraíso.
Para o meu pai, nascido e criado numa aldeia, sem falar a língua e sozinho, presumo que não deve ter parecido assim. Como bom português, meteu mãos à obra e fez de tudo um pouco. Não sei muitas histórias que ele não é de falar muito, mas lembro-me de contar que trabalhara na limpeza de uma fábrica de chocolates e de como suspeitava que deixavam as caixas abertas nas secretárias num teste silencioso à honestidade dele e dos colegas. A certa altura saiu da cidade e foi para a construção do caminho-de-ferro. Passavam semanas na floresta quase virgem, afugentavam os ursos gulosos do barracão/despensa com gasolina e a única coisa que os ligava à civilização eram os quilómetros de linha que iam deitando para trás das costas. Um acidente com um vagão tirou-o dali para fora de helicóptero direito para o hospital. Guarda a recordação na forma de uma "entrada" de cabelo ligeiramente desproporcionada.
Quando regressou a Portugal encontrou uma filha que não conhecia. E vice-versa. Tentou compensar com passeios domingueiros e idas à praia. Aí sim, dentro de água não havia diferença entre nós, eu era uma "pata" igualzinha a ele, horas dentro de água até ficar com os dedos roxos. Hoje chamar-lhe-iam inconsciente mas com 9 ou 10 anos levava-me para o mar da Nazaré onde bebi mais água do que em qualquer outra praia. Aí aprendi com ele a furar ondas e também a aceitá-las, a deixar o corpo mole quando era enrolada e despejada na praia.
Fui crescendo sem grandes sobressaltos e sem lhe causar dores de cabeça de maior importância até o carteiro começar a parar amiúde em casa para deixar cartas atrás de cartas que vinham da Madeira.
Vi o meu pai chorar duas vezes por causa do mim: no largo da igreja aqui em frente, quando me acompanhou à Madeira da primeira vez e teve consciência de que eu ia ficar e quando me levou pela segunda vez ao aeroporto para vir embora. A minha mãe, a avó, tudo bem, mas o meu pai não chorava e essa recordação queimou-me durante muito tempo.
Agora, tal como a minha mãe, também ele tem a filha e os netos a crescer longe dele. Vamos compensando os dois mandando-lhes os miúdos durante as férias para que os estraguem com mimos, cada um à sua maneira. E assim se atenuam as saudades até à próxima partida.
É assim, pai.
Um beijinho e um xi-coração apertado.

4 comentários:

diefe disse...

Podia dizer-te aquela do "deixa lá, ao menos é tempo de qualidade, e blá, blá..." mas prefiro antes outra, não menos batida, mas verdadeira: "mesmo assim ainda os tens por cá, aproveita...". É que tenho tantas saudades dos meus...
Beijos

Uxka disse...

Sim :)
Beijos

Márcia disse...

o meu fazia no dia 12.
beijo.

Uxka disse...

... e, a menos que a memória me engane, deu origem a um conto belíssimo que me arrepiou a alma.
Um beijo deste lado do mar, Márcia.